segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Distração




Saiu para comprar cigarros e…
Entrou nesses botecos com porta igual aos filmes de faroeste. Lembrança velha, no comercial, a propaganda de cigarros, olhos admirados e bobos. O pai, doido de fumar, um atrás do outro, o cheiro, a voz, cigarro humano, tomou apreço, um lado libertário, fumar era ato de macho, melhor que enfrentar valentões, a mulherada estasiada pra beijar os carinhas que fumavam, só charme, pra mostrar de bonito.
Saiu pra comprar cigarros e…
Calor, boteco abafado, música, música calma, de termino de expediente. Pouca gente, animação zero. No balcão, prateleira de bebidas, outra prateleira, encontrou o que queria. A cara do velho que atendia letargia pura. Que vai querer? Sem jeito falou da cachaça do alambique. É muito boa. O velho com ar malicioso. Trouxe a garrafa e o copo, dobrou a dose. Conta da casa, a metade você paga. Beberia de uma vez, uma loira, despercebida, o encarou, lábios destacados, batom vermelho, mulher clichê, saia curta, pernas brancas em meia calça preta de renda, bebia cerveja, garrafa cheia e gelada.
Bebeu a cachaça. Se arrependeu. A cerveja era mais tranquila. Só levaria tempo pra beber. É policial? A moça arriscou perguntar. Embriagada não estava. Olhos sóbrios, gestos sóbrios. Enxergou beleza, decote bonito, seios médios na blusinha. Não. Não sou policial. Tenho cara? Tem jeitão de tira. Que bom que errei. Oras, cometeu algum crime? Tenho medo de polícia, cometi porcaria nenhuma. Libertou um sorriso pra ele. Voltou a beber a bendita bebida, bebeu metade. Disfarçou, calor estranho agitou o corpo, quase perdeu o folego.
Nunca te vi. Falou a loira, a cerveja tinha ido embora. Encheu, deu um belo gole. Sai pra… Interrompeu. Ela nem deveria saber. Curiosidade mata. Entrei hoje. Bom lugar. Desculpa qualquer. Arranjou coragem pra terminar a dose, que sensação terrível, que sofrimento! O velho saiu, foi ver o que o cidadão queria, estava bêbado, na mesa vodca e porção de calabresa. É um bom lugar, de gente feia. A moça sorriu. As mesmas pessoas, os mesmos pedidos. Cair na rotineira é chato pra caramba. Que pena, né? Pena? Querendo soar engraçado? Ficou sem graça. Pediria o maço de cigarros e cairia fora. Infelizmente o velho se escafedeu no fundo do boteco. Ela bebeu outro copo da cerveja, levantou do banquinho. Disse no ouvido dele. Estarei no banheiro. Deu leve mordida na orelha. Andou, o velho retornou, nem perguntou da mulher. Engoliu o restante da cachaça. Desta vez não teve nenhum mal-estar. Limpou a boca com o papel. Olhou na direção do banheiro, a loira esperando, a prateleira, o maço ainda lá. Vou ao banheiro. O velho balançou a cabeça positivamente. Abriu a porta. Pensei que desistiu. Ou fugido. O puxou para si, enlaçou-o. Era delicioso escutar a respiração dela, envolvente, sedutora. A voz excitante, provocativa. Faz programa? A moça riu. É engraçado, moço. Sem perguntas. Saiba que sou casado. Quieto! Começaram o beijo e os movimentos aos poucos aumentando no calor abafado.


Ela saiu primeiro. Pagou, deu um até amanhã e foi embora. Ele veio em seguida, o velho encarou, temeu que perguntasse. Pagou, disse até mais. O boteco vazio, sem graça, monotonia pintada. Deu calafrio, andou mais rápido pra sair. De fora, ar agradável. Saiu pra comprar cigarros e… distraiu. Perdeu-se na multidão sem fim.


(Rod.Arcadia)





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